Por ALEXIS FLYNN, de Londres
Embora o balanço da maioria das grandes petrolíferas europeias tenha registrado na semana passada um salto no lucro do trimestre, os resultados foram ofuscados por uma tendência que continua a afligir Wall Street e executivos de empresas: quase toda grande petrolífera registrou queda na produção de petróleo e gás em relação ao ano anterior, muitas vezes na casa dos dois dígitos.
A indústria petrolífera está injetando vastos recursos no problema. Ela está investindo mais em projetos de petróleo não convencionais, na exploração de alto risco em áreas de fronteira e na reestruturação empresarial. Mas ainda que essas estratégias deem fruto em certos casos, há pouca dúvida de que a produção anêmica de petróleo é sinal de um desafio de longo prazo para o setor.
Detalhes variam de empresa para empresa. Na BP PLC, a produção caiu 11% em parte porque a empresa ainda sofre com a queda da atividade no Golfo do México devido ao catastrófico vazamento no ano passado. A produção da Eni SpA caiu 15% devido à descomunal exposição da gigante italiana à Líbia, assolada por uma guerra civil. A espanhola Repsol YPF SA, cuja produção caiu 17%, foi afetada pela Líbia, pela proibição da produção no Golfo do México e por problemas trabalhistas na Argentina. Na norueguesa Statoil ASA, a queda de 16% se deveu basicamente a interrupções na produção e atividades de manutenção no mercado doméstico no Mar do Norte. A produção da petrolífera francesa Total SA caiu 2% em relação ao ano anterior, basicamente devido a perda do petróleo líbio.
As grandes petrolíferas estão mais vulneráveis a problemas operacionais em parte devido à perda de controle sobre recursos cruciais. Em 1973, empresas de petróleo independentes controlavam 75% das reservas mundiais; hoje, a cifra não passaria de 10%, segundo certas estimativas. Isso obrigou as grandes do setor a apostar mais em atividades de alto custo não convencionais, como gás de xisto, exploração em águas profundas e exploração no Ártico.
O investimento em ativos convencionais respondeu por 63% das despesas totais de capital das grandes petrolíferas entre 2001 e 2005, segundo estudo da Wood Mackenzie. Essa proporção deve cair para 40% entre 2011 e 2015.
Balanços divulgados na semana passada mostraram que as duas maiores petrolíferas do mundo, a Royal Dutch Shell PLC e a Exxon Mobil Corp., estavam em situação um pouco melhor do que a de colegas menores, à luz da capacidade de tocar projetos que exigem alto capital. Outro destaque, a favorita de Wall Street BG Group PLC, a única entre as grandes europeias a registrar produção maior do que a do ano passado, vem prosperando com recentes descobertas no dinâmico litoral brasileiro.
No entanto, mesmo com os novos modelos há problemas. Embora a demanda de gás natural siga forte, os preços do produto podem cair mais à frente devido ao aumento da produção de gás de xisto na América do Norte e à conjuntura econômica ruim na Europa e nos EUA.
O movimento por mais exploração despertou interesse na África — na esteira de novos resultados sísmicos e de recentes descobertas em Gana e Uganda. É, contudo, uma aposta arriscada, que exige alto capital e agilidade para agarrar oportunidades e se adaptar rapidamente a circunstâncias políticas adversas. O setor é cheio de histórias sobre como a hesitação fez grandes petrolíferas deixarem passar algumas das descobertas recentes mais lucrativas no continente.
A consolidação seria outra saída, mas poucos esperam fusões gigantescas de petrolíferas integradas num cenário de vigilância antitruste e de cotação elevada do petróleo. Mais provável seria um acordo semelhante à compra, pela Exxon, da empresa americana de projetos de gás especiais XTO, um fator importante no aumento de 10% na produção da Exxon no trimestre. Simon Flowers, da Wood Mackenzie, prevê mais "aquisições complementares" como esta, mas diz que "aquisições em larga escala não são prováveis a curto prazo".
Outra possibilidade é uma onda de acordos entre grandes petrolíferas de capital aberto e empresas emergentes de controle estatal como a brasileira Petrobras, a russa OAO Rosneft e a chinesa CNPC. A tentativa frustrada de troca de ações e de um pacto de exploração no Ártico entre a BP e a Rosneft foi um exemplo do esforço que as gigantes do petróleo estão dispostas a fazer para ter acesso a reservas potencialmente lucrativas dessas estatais.
Nos próximos meses, é provável que Wall Street faça mais pressão por alguma espécie de ação tangível das grandes do setor. A cotação dessas empresas embute um considerável desconto em relação à cotação do petróleo em si, fator que poderia aumentar a pressão pela recompra de ações e por mais dividendos especiais. A recente decisão da ConocoPhillips de se desfazer de operações refino e distribuição fez a cotação das ações da empresa texana subir e gerou perguntas para o resto do setor. Mas até agora, a maioria das demais petrolíferas descarta a ideia como contraproducente, tendo em vista as vantagens do modelo convencional integrado.
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